quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Documentário - Vinicius de Moraes
A montagem de um pocket show em homenagem a Vinícius de Moraes por dois atores (Camila Morgado e Ricardo Blat) é o ponto de partida para reconstituição de sua tragetória. O documentário mostra a vida, a obra, a família, os amigos, os amores de Vinícius de Moraes, autor de centenas de poesias e letras de música. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretações de muitos de seus clássicos.
Vinicius de Moraes - 3 poemas
A morte
(Rio de Janeiro)
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
Canção
Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
Paisagem
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.
Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.
Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
Vinicius de Moraes
(Rio de Janeiro)
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
Canção
Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
Paisagem
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.
Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.
Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
Vinicius de Moraes
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Nova Ponte em Florianópolis
Não precisamos de mais uma ponte em Florianópolis. Precisamos investir em cultura, por exemplo, melhorar o CIC (Centro Integrado de Cultura), que ántes era lotado durante a semana, com espetáculos de teatro, música, cinema, no café Matisse.
Além do CIC, incentivar a criação de mais polos culturais na cidade, para deslocar o Trânsito para outras zonas da cidade, e não gerar concentração no centro da cidade. Por que os administradores dessa cidade não pensam dessa forma?
Além do CIC, incentivar a criação de mais polos culturais na cidade, para deslocar o Trânsito para outras zonas da cidade, e não gerar concentração no centro da cidade. Por que os administradores dessa cidade não pensam dessa forma?
Teatro dia a dia
O mundo do teatro é realmente incrivel. As descobertas nos textos, nos exercícios práticos. Dia a dia, há um crescimento poro a poro, olhar a olhar. Coisas mágicas vão acontecendo.
Tirésias, sob um outro olhar - Solange Rebuzzi
Observações sobre Édipo e Antígona a partir de Hölderlin
1.
Conta a lenda grega que Tirésias foi ao longo da vida por ação dos deuses, sucessivamente, homem, mulher e homem outra vez. Posteriormente, novamente por ação divina, perdeu a visão. Em contrapartida, ganhou a possibilidade de adivinhar o (tempo) futuro como se fora uma outra forma de ver. Assim monta-se, de imediato, na cena de uma impossibilidade, uma outra cena; a de uma (im)possibilidade que carrega em si mesma um possível.
2.
Na tragédia Édipo Rei escrita por Sófocles, Tirésias se apresenta com alguma subjetividade. “Detentor da verdade divina, (ele) não perde a sua qualidade humana que se reflete no próprio modo como a verdade é transmitida ao rei” [2]. A tensão do diálogo do adivinho com Édipo, no qual ele vai revelando suas profecias aparece, portanto, carregada de irritação.
Rememoramos: durante a ação da tragédia (Édipo Rei), o rei procura ouvir algo que lhe esclareça porque o adivinho se fechara em silêncio, logo após o seu pedido de alcançar conhecimento. O adivinho, hoje reconhecido como aquele “que é simultaneamente um homem e um ser intermediário, que se situa, apenas em certos momentos, entre o mundo dos homens e um outro mundo”, [3] quando não responde ao pedido do rei de Tebas, é percebido como não querendo revelar a sua intuição divinatória. Édipo que procurava respostas para o estado de desamparo em que se encontrava o seu reinado depois da chegada da peste, diz a Tirésias: “Então tu, malvado dos malvados, tu que serias capaz de enfurecer uma rocha, não falarás?” [4]. O próprio Coro comenta esta afirmação, ao tentar conciliar Édipo e Tirésias:
A nós se nos afigura que as tuas palavras (de Tirésias) foram proferidas sob o império da cólera, mas também as tuas, Édipo.
E não é disso que carecemos, mas da melhor solução para o oráculo[5].
Na fala do Coro[6] percebemos que se pretende uma solução para o momento tenso que se apresenta ali. A atitude do Coro na obra comporta também uma pergunta, segundo Hölderlin, algo “que dá ao todo da tragédia seu equilíbrio, fazendo “adequadamente” ou convenientemente surgir seu sentido? [7] Édipo insiste buscando ouvir alguma verdade: “Ó Tirésias, que tudo conheces, o que foi revelado e o que é oculto. O que habita o céu e o que pisa a terra ! (...) Não nos recusarás, certamente, o presságio das aves ou outro caminho da profecia, se o possuis.” [8] E o rei pede chegando mesmo a forçar Tirésias a declarar os oráculos depois de tê-lo até insultado. Conferindo ao momento mais intensidade, Tirésias termina por declarar:
Acaso sabes de quem procedes? Pois, sem que o saibas, és um inimigo para os teus, tanto para os que já estão sob a terra, como para os que vivem sobre ela. Uma maldição de dois gumes, a de teu pai e a de tua mãe, te há-de arrastar para fora desta terra no seu terrível passo, a ti, que agora, vês bem e dentro em pouco só verás a treva. [9]
Lacan no Seminário A Ética comenta que Tirésias, tanto quanto Homero, sabia que só quem escapa às aparências pode alcançar a verdade. Lacan, aqui, faz relação com a ‘cegueira’ daquele que diante de um luto absoluto, como sabemos que é o de Édipo, consegue continuar e seguir buscando a chave de seu enigma. O desejo de desejar que Édipo experimenta é vivido de uma forma surpreendente, e diríamos, também, intensa. Cito:
Se ele se arranca do mundo pelo ato que consiste em cegar-se, é que somente aquele que escapa das aparências pode chegar à verdade. Os antigos sabiam disso – o grande Homero é cego, Tirésias também. [10]
Parece-nos que Sófocles constrói, nesta tragédia sobre a condição humana, uma espécie de ‘lucidez’ “que suspende a limitação da consciência normal (que depende de distinções determinadas)” [11]. O que a fábula ou o cenário trágico nos apresenta, então, diz de um sentimento de liberdade e de contradição do subjetivo e do objetivo que o “herói trágico é (como dirá também Hegel) ‘ao mesmo tempo culpado e inocente’, lutando contra o invencível, ou seja, lutando contra o destino que é o próprio responsável por sua falta,” [12] provocando uma derrota inelutável e necessária da qual ele só sairá “pela perda da própria liberdade” [13].
Os estudiosos desses mitos reconhecem tanto no texto da tragédia de Antígona quanto no de Édipo, o uso de aspectos importantes da linguagem e descobrem as relações e os não-ditos em “pólos extremos da piedade e da selvageria” [14] como parte de um mesmo mundo. Em Antígona, Sófocles deixa ver nos gestos e palavras da personagem “os deslizes desconcertantes das suas afirmações” [15]. Antígona passa, por exemplo, do argumento à imaginação. Às vezes, faz uso de uma argumentação impecável e a seguir desliza para afirmações provocantes.
E na errância, aonde Édipo se lançará, encontramos alguns outros pontos importantes. De fato Édipo, que antes vivia de forma segura, passa a mover-se nas trevas em direção ao (im)possível das certezas. Será nesse caráter do nosso herói, e no jogo de significantes de luz e treva, que podemos perceber o que Freud nos apresenta na reconstrução deste mito na psicanálise: a presença de um ‘saber’ que se constrói em tempos distintos da constituição de qualquer sujeito.
O inconsciente pisca e nos aponta, aos poucos, a direção que alerta alguma ‘verdade’ para cada e qualquer sujeito em análise, dentro de um caminho a desvendar. Podemos afirmar ainda que, quando lemos, inúmeras vezes, as tragédias de Édipo, sempre teremos a oportunidade de encontrar a complexidade e o insondável da natureza do homem, e um estado de desamparo no qual o sujeito apresenta seu não saber.
Philippe Lacoue-Labarthe, estudioso das traduções hölderlianas, reconhece em Antígona “a mais grega das tragédias” [16] no sentido do ‘mais lírico’, e também da obra onde Sófocles se mostra de fato “mais próximo de Píndaro“ [17]. Ele ainda comenta que a tradução feita por Hölderlin deixa o discurso dos gregos bem perto de nós, e não porque diga tudo. Especialmente, pelo que não diz (no sentido de que vai dizer de maneira diferente).
A queixa de Antígona surge como um lamento “com respeito a tudo o que da vida, lhe foi recusado” [18]. Com as considerações de Lacan observamos de onde Antígona fala; deste lugar de quem já perdeu a vida, mas também de onde pode vivê-la na forma do que já foi perdido. Lembramos que ela foi condenada a morrer aos poucos dentro de uma tumba de pedra, ou seja, enterrada viva.
Solange Rebuzzi. Entre os Ensaios estão textos publicados nos sites da Revista de Poesia e Cultura Sibila, e Revista Critério, ambas editadas em São Paulo.
Mais em solrebuzzi
1.
Conta a lenda grega que Tirésias foi ao longo da vida por ação dos deuses, sucessivamente, homem, mulher e homem outra vez. Posteriormente, novamente por ação divina, perdeu a visão. Em contrapartida, ganhou a possibilidade de adivinhar o (tempo) futuro como se fora uma outra forma de ver. Assim monta-se, de imediato, na cena de uma impossibilidade, uma outra cena; a de uma (im)possibilidade que carrega em si mesma um possível.
2.
Na tragédia Édipo Rei escrita por Sófocles, Tirésias se apresenta com alguma subjetividade. “Detentor da verdade divina, (ele) não perde a sua qualidade humana que se reflete no próprio modo como a verdade é transmitida ao rei” [2]. A tensão do diálogo do adivinho com Édipo, no qual ele vai revelando suas profecias aparece, portanto, carregada de irritação.
Rememoramos: durante a ação da tragédia (Édipo Rei), o rei procura ouvir algo que lhe esclareça porque o adivinho se fechara em silêncio, logo após o seu pedido de alcançar conhecimento. O adivinho, hoje reconhecido como aquele “que é simultaneamente um homem e um ser intermediário, que se situa, apenas em certos momentos, entre o mundo dos homens e um outro mundo”, [3] quando não responde ao pedido do rei de Tebas, é percebido como não querendo revelar a sua intuição divinatória. Édipo que procurava respostas para o estado de desamparo em que se encontrava o seu reinado depois da chegada da peste, diz a Tirésias: “Então tu, malvado dos malvados, tu que serias capaz de enfurecer uma rocha, não falarás?” [4]. O próprio Coro comenta esta afirmação, ao tentar conciliar Édipo e Tirésias:
A nós se nos afigura que as tuas palavras (de Tirésias) foram proferidas sob o império da cólera, mas também as tuas, Édipo.
E não é disso que carecemos, mas da melhor solução para o oráculo[5].
Na fala do Coro[6] percebemos que se pretende uma solução para o momento tenso que se apresenta ali. A atitude do Coro na obra comporta também uma pergunta, segundo Hölderlin, algo “que dá ao todo da tragédia seu equilíbrio, fazendo “adequadamente” ou convenientemente surgir seu sentido? [7] Édipo insiste buscando ouvir alguma verdade: “Ó Tirésias, que tudo conheces, o que foi revelado e o que é oculto. O que habita o céu e o que pisa a terra ! (...) Não nos recusarás, certamente, o presságio das aves ou outro caminho da profecia, se o possuis.” [8] E o rei pede chegando mesmo a forçar Tirésias a declarar os oráculos depois de tê-lo até insultado. Conferindo ao momento mais intensidade, Tirésias termina por declarar:
Acaso sabes de quem procedes? Pois, sem que o saibas, és um inimigo para os teus, tanto para os que já estão sob a terra, como para os que vivem sobre ela. Uma maldição de dois gumes, a de teu pai e a de tua mãe, te há-de arrastar para fora desta terra no seu terrível passo, a ti, que agora, vês bem e dentro em pouco só verás a treva. [9]
Lacan no Seminário A Ética comenta que Tirésias, tanto quanto Homero, sabia que só quem escapa às aparências pode alcançar a verdade. Lacan, aqui, faz relação com a ‘cegueira’ daquele que diante de um luto absoluto, como sabemos que é o de Édipo, consegue continuar e seguir buscando a chave de seu enigma. O desejo de desejar que Édipo experimenta é vivido de uma forma surpreendente, e diríamos, também, intensa. Cito:
Se ele se arranca do mundo pelo ato que consiste em cegar-se, é que somente aquele que escapa das aparências pode chegar à verdade. Os antigos sabiam disso – o grande Homero é cego, Tirésias também. [10]
Parece-nos que Sófocles constrói, nesta tragédia sobre a condição humana, uma espécie de ‘lucidez’ “que suspende a limitação da consciência normal (que depende de distinções determinadas)” [11]. O que a fábula ou o cenário trágico nos apresenta, então, diz de um sentimento de liberdade e de contradição do subjetivo e do objetivo que o “herói trágico é (como dirá também Hegel) ‘ao mesmo tempo culpado e inocente’, lutando contra o invencível, ou seja, lutando contra o destino que é o próprio responsável por sua falta,” [12] provocando uma derrota inelutável e necessária da qual ele só sairá “pela perda da própria liberdade” [13].
Os estudiosos desses mitos reconhecem tanto no texto da tragédia de Antígona quanto no de Édipo, o uso de aspectos importantes da linguagem e descobrem as relações e os não-ditos em “pólos extremos da piedade e da selvageria” [14] como parte de um mesmo mundo. Em Antígona, Sófocles deixa ver nos gestos e palavras da personagem “os deslizes desconcertantes das suas afirmações” [15]. Antígona passa, por exemplo, do argumento à imaginação. Às vezes, faz uso de uma argumentação impecável e a seguir desliza para afirmações provocantes.
E na errância, aonde Édipo se lançará, encontramos alguns outros pontos importantes. De fato Édipo, que antes vivia de forma segura, passa a mover-se nas trevas em direção ao (im)possível das certezas. Será nesse caráter do nosso herói, e no jogo de significantes de luz e treva, que podemos perceber o que Freud nos apresenta na reconstrução deste mito na psicanálise: a presença de um ‘saber’ que se constrói em tempos distintos da constituição de qualquer sujeito.
O inconsciente pisca e nos aponta, aos poucos, a direção que alerta alguma ‘verdade’ para cada e qualquer sujeito em análise, dentro de um caminho a desvendar. Podemos afirmar ainda que, quando lemos, inúmeras vezes, as tragédias de Édipo, sempre teremos a oportunidade de encontrar a complexidade e o insondável da natureza do homem, e um estado de desamparo no qual o sujeito apresenta seu não saber.
Philippe Lacoue-Labarthe, estudioso das traduções hölderlianas, reconhece em Antígona “a mais grega das tragédias” [16] no sentido do ‘mais lírico’, e também da obra onde Sófocles se mostra de fato “mais próximo de Píndaro“ [17]. Ele ainda comenta que a tradução feita por Hölderlin deixa o discurso dos gregos bem perto de nós, e não porque diga tudo. Especialmente, pelo que não diz (no sentido de que vai dizer de maneira diferente).
A queixa de Antígona surge como um lamento “com respeito a tudo o que da vida, lhe foi recusado” [18]. Com as considerações de Lacan observamos de onde Antígona fala; deste lugar de quem já perdeu a vida, mas também de onde pode vivê-la na forma do que já foi perdido. Lembramos que ela foi condenada a morrer aos poucos dentro de uma tumba de pedra, ou seja, enterrada viva.
Solange Rebuzzi. Entre os Ensaios estão textos publicados nos sites da Revista de Poesia e Cultura Sibila, e Revista Critério, ambas editadas em São Paulo.
Mais em solrebuzzi
Vida e poesia - Vinicius de Moraes
(Rio de Janeiro)
A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.
Vinicius de Moraes
A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.
Vinicius de Moraes
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Vinicius de Moraes - Imitação de Rilke
Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveís brilhando na noite
Me quer.
Alguém que me espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.
Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.
Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a morte dos ermos da noite…)
Quem é?
Vinicius de Moraes
Rainer Maria Rilke (Praga,1875 - Valmont, Suíça, 1926), foi um importante escritor. Depois de poemas de gosto neo-romântico, recolheu o que escrevera entre 1899 e 1903 no volume Stunden-buch (Livro das horas), marcado pela reflexão mística.
Decisivo para seu amadurecimento artístico foi o convívio com Rodin, em Paris, de 1905 a 1906, quando abandonou a musicalidade vaga em favor de um maior senso da forma e de uma atenção ao contorno das coisas reais. Os poemas deste período, 1907 a 1908, apareceram em Neue Gedichte (Novos poemas). Até o início da I Guerra Mundial, Rilke viveu em Paris, viajando pela Europa e norte da África.
Suas célebres Duineser elegien (Elegias de Duíno), iniciadas e concluídas em 1923, deixam ver uma extrema sabedoria estético-filosófica no tratamento de temas essenciais da condição humana, como a morte, o amor e o tempo. Sua obra em prosa mais importante, iniciada em 1910, são Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os cadernos de Malte Laurids Brigge). Rilke morou em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se definitivamente para Sierra (Suíça).
Sua obra exerceu grande influência sobre a literatura dos anos cinqüenta, incluindo-se a brasileira, e a poesia de Vinicius de Moraes não foi uma exceção.
Com olhos imóveís brilhando na noite
Me quer.
Alguém que me espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.
Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.
Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a morte dos ermos da noite…)
Quem é?
Vinicius de Moraes
Rainer Maria Rilke (Praga,1875 - Valmont, Suíça, 1926), foi um importante escritor. Depois de poemas de gosto neo-romântico, recolheu o que escrevera entre 1899 e 1903 no volume Stunden-buch (Livro das horas), marcado pela reflexão mística.
Decisivo para seu amadurecimento artístico foi o convívio com Rodin, em Paris, de 1905 a 1906, quando abandonou a musicalidade vaga em favor de um maior senso da forma e de uma atenção ao contorno das coisas reais. Os poemas deste período, 1907 a 1908, apareceram em Neue Gedichte (Novos poemas). Até o início da I Guerra Mundial, Rilke viveu em Paris, viajando pela Europa e norte da África.
Suas célebres Duineser elegien (Elegias de Duíno), iniciadas e concluídas em 1923, deixam ver uma extrema sabedoria estético-filosófica no tratamento de temas essenciais da condição humana, como a morte, o amor e o tempo. Sua obra em prosa mais importante, iniciada em 1910, são Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os cadernos de Malte Laurids Brigge). Rilke morou em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se definitivamente para Sierra (Suíça).
Sua obra exerceu grande influência sobre a literatura dos anos cinqüenta, incluindo-se a brasileira, e a poesia de Vinicius de Moraes não foi uma exceção.
Allegro - Vinicius de Moraes
Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra
Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras
E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida
E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.
Oxford, 1939.
Vinicius de Moraes
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra
Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras
E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida
E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.
Oxford, 1939.
Vinicius de Moraes
O tempo nos parques - Vinicius de Moraes
O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes - Bilhete a Baudelaire
Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira
Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat
Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...
Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!
Los Angeles, 1947.
Vinicius de Moraes
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira
Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat
Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...
Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!
Los Angeles, 1947.
Vinicius de Moraes
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Fellipe Cosme - Vozes Mudas
Meu livro de poesia e prosa poética "Vozes Mudas" sendo vendido na livraria nobel, do Floripa Shopping, em Florianópolis, por 15 reais.
A Smile To Remember - Charles Bukowski
we had goldfish and they circled around and around
in the bowl on the table near the heavy drapes
covering the picture window and
my mother, always smiling, wanting us all
to be happy, told me, 'be happy Henry!'
and she was right: it's better to be happy if you
can
but my father continued to beat her and me several times a week while
raging inside his 6-foot-two frame because he couldn't
understand what was attacking him from within.
my mother, poor fish,
wanting to be happy, beaten two or three times a
week, telling me to be happy: 'Henry, smile!
why don't you ever smile?'
and then she would smile, to show me how, and it was the
saddest smile I ever saw
one day the goldfish died, all five of them,
they floated on the water, on their sides, their
eyes still open,
and when my father got home he threw them to the cat
there on the kitchen floor and we watched as my mother
smiled
Charles Bukowski
in the bowl on the table near the heavy drapes
covering the picture window and
my mother, always smiling, wanting us all
to be happy, told me, 'be happy Henry!'
and she was right: it's better to be happy if you
can
but my father continued to beat her and me several times a week while
raging inside his 6-foot-two frame because he couldn't
understand what was attacking him from within.
my mother, poor fish,
wanting to be happy, beaten two or three times a
week, telling me to be happy: 'Henry, smile!
why don't you ever smile?'
and then she would smile, to show me how, and it was the
saddest smile I ever saw
one day the goldfish died, all five of them,
they floated on the water, on their sides, their
eyes still open,
and when my father got home he threw them to the cat
there on the kitchen floor and we watched as my mother
smiled
Charles Bukowski
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